Ei gente!
Pelo tom do meu post anterior, vocês viram que os dias andam difíceis por aqui. Quando escrevi aquela postagem, ainda estava sobre o efeito de gás lacrimogênio…É isso aí, GÁS LACRIMOGÊNIO.
Por isso, senta que lá vem história…
Então. Na quinta-feira, a minha ilha amanheceu com sinal de fogo, o trânsito estava totalmente engarrafado. Fiquei 02 horas dentro do carro aguardando o trânsito andar, mas mesmo assim consegui chegar ao trabalho.
Não me abalei tanto e segui com a minha rotina. Na hora do almoço, fui almoçar com mais três colegas da equipe, todas psicólogas. Quando terminou o almoço, eu, a louca em questão, resolvi ver em que pé estava a manifestação. Elas foram comigo.
Quando chegamos lá, um grupo de mais ou menos 70 estudantes manifestavam contra o aumento da passagem e reivindicavam passe livre para os estudantes universitários da UFES. Eles protestavam em frente ao palácio do governo e paralisaram uma das vias queimando pneus, por isso havia sinal de fumaça.
Sinceramente achei uma lição de cidadania ver meninos tão jovens lutando por algo, criaram ali uma comissão que iria conversar com o governador. Eles pintavam a cara e gritavam palavras de ordem. Eu, como boa geração cara pintada, fiquei ali observando, fotografando e adorando o protesto. Era horário de almoço e por volta das 12:30 os bombeiros disseram que iriam entrar para apagar o incêndio que já estava assim:
Viram que fogaréu?
Logo depois aparece o batalhão da polícia de choque ao longe. Um grupo de policiais se apresenta e diz que os meninos tinham 05 minutos para desocupar a pista. Os estudantes não quiseram se intimidar e disseram que iriam resistir. Os líderes do grupo pediram para que todos sentassem no chão. Todos sentaram.
O batalhão avançava. Lembro que uma das meninas que estava na liderança disse: - “Quem sabe rezar, reza, porque agora fodeu tudo!” Rsss…
O BME(Batalhão de Missões Especiais) avançou…
E atacou…
Lançou bomba de gás lacrimogênio! E balas de borracha!
Eu estava na calçada, apavorada ao ver o BME avançando sobre os estudantes e não acreditava na cena que estava vendo. Não sabia dos efeitos do gás, quando de repente comecei a sentir falta de ar, os olhos arderem, tonteira, começamos a tossir e saímos correndo. Conseguimos entrar numa loja para fugir da fumaça e das balas de borracha, a dona da loja e os funcionários também passavam mal devido ao gás, e tentavam fechar a loja para evitar que outras pessoas entrassem na loja. Foi um Deus nos acuda!
Alguns estudantes reagiram e começaram a jogar pedras no BME, outros saíram pelas escadas do palácio do governo. Quando conseguimos nos recuperar e tentávamos voltar ao trabalho, o BME ocupava a outra pista, avançava com armas e cachorros. Gritava para nós que estávamos na calçada andando, querendo sair daquele tumulto, para sairmos da rua. Me vi em plena ditadura militar! Cheguei ao trabalho, trêmula, com os olhos lacrimejantes, vermelhos e ainda com uma sensação de tonteira. Soubemos que os estudantes foram perseguidos pelo BME, alguns relataram que buscaram refúgio na igreja Catedral Metropolitana. À noite os estudantes da UFES( Universidade Federal do Espírito Santo) se revoltaram pelo acontecido pela manhã, e aí a polícia de choque foi ainda mais impiedosa, inclusive jogando bombas de gás e balas de borracha dentro da UFES.
Como a maioria da população fiquei horas parada no trânsito, mas nada me irritou mais do que ver os excessos de repressão cometido pelo BME a mando do governador. Eles podiam ter tomando parte da pista para liberar a passagem dos carros e não precisavam atacar os estudantes e a população que estava no local. Os jornais locais só vendiam a notícia de vandalismo, mas os intelectuais da ilha, os movimentos sociais, professores da UFES e diretório dos estudantes acharam a mesma coisa que eu. Em menos de 12 horas as pessoas organizaram um novo protesto, mobilizando pelo face book e redes sociais mais de 04 mil pessoas que se juntaram para protestar contra a violência e o excesso da ação policial do dia anterior.
Bem, eu levei bomba de gás na cara, não podia fazer de conta que nada aconteceu. Ontem fui para a UFES e participei do protesto. Foi um movimento pacífico e o BME recuou, o governador sabe que não ficaria bem para ele um novo conflito…
Como vêem, estou precisando de uma boa dose de calmaria.