Outro dia estava olhando o balcão onde tenho várias fotos em porta-retratos na minha casa. Estavam lá emolduradas numa imagem, minhas irmãs, meus sobrinhos, meus filhos, meu pai, minha avó, meu marido….Olhei novamente aquelas fotos. Curiosamente não tinha lá nem uma foto da pessoa mais importante da minha existência: minha mãezinha querida.
Ela detestava tirar fotos, além disso todos que são da minha época sabem que não tínhamos as facilidades e nem o hábito que temos hoje de tirar fotos a todo momento.
Minha mãe praticamente não tem fotos. Também não sabia ler, nem escrever. Era analfabeta, nunca foi à escola. Ela não deixou imagem, escrita ou desenho. Ela não deixou registros concretos. Nada que seja possível tocar.
Mas deixou suas marcas fortemente no mundo. Perpetuou sua genética nos seus nove filhos. Em todos nós imprimiu a marca do amor e registrou nas pessoas que a conheceram, seu jeito, seu humor, suas mandigas. Ajudava a todos que podia, com um chá, um prato de comida, um doce, um conselho.Tinha com todos e para todos tempo e paciência, era capaz de passar horas num bate-papo interminável com a comadre. Coisa que hoje em dia, com a correria da vida não fazemos, não temos tempo para um vizinho, um parente, um amigo.
Minha mãe não sabia escrever, mas deixou seu registro em todos que conviveu. Registrou solidariedade, imprimiu amor, escreveu fé. Marcou com o ferro da solidariedade a todos aqueles que lhe conheceram.
Tem pessoas que não precisam deixar escritos ou imagem, pois sabem marcar a alma das pessoas com a sua forma simples de viver.

