Ainda tenho em mim alguns diamantes brutos, cada escrito desses, faz com que eu o lapide e o transforme em jóias. São escritos que estão registrados na minha alma e fazem parte da minha história de vida.
Segue mais um deles:
Sou uma dessas pessoas que nasceram desprivilegiadas. Não nasci em berço de ouro. Aliás, nem berço tive. Os bebês quando nasciam na minha casa, dormiam na cama dos pais mesmo. Não tive nada material. Não tive boneca, não tive berço, não tive chupeta, não tive brinquedos comprados. Não tive roupas de lojas. Dormíamos em quatro numa cama de casal. Não tive quarto, não tive cama.
As roupas que usávamos eram todas feitas pela minha mãe. Vestidos de chitão. Calcinha de pano. Bicicleta? Sonho impossível. Maçã só existia nos contos de fada da escola.
A comida também não era farta. Ás vezes faltava comida em casa. Isso mesmo, já passei fome sim. Nesses momentos a minha avó nos salvava, fazia pirão de feijão, farinha e cebola, todos matavam a fome com aquele pirão, aliás ainda me lembro do sabor maravilhoso que aquele pirão de cebola fazia m nossa boca após 02 dias de fome, ele virava um verdadeiro banquete!
Apesar de viver numa família enorme, num total de 12 pessoas e todos muito próximos, os gestos de carinho não existiam nessa família. Não tive abraço,não tive beijo, não tive festa de aniversário. Os afetos não circulavam através de ações.
Comecei a trabalhar muito cedo, aos 10 anos já trabalhava como babá numa casa de família.Só assim era possível comprar as coisas que necessitava, como cadernos, lápis, caneta, sapato, calcinha. Eu era responsável por cuidar de um bebê que se chamava Juliano e passar as roupas dele. Era uma família vizinha nossa. Aos 13 fui trabalhar como doméstica numa casa mais distante. Aos 15 fui trabalhar num salão de beleza lavando os cabelos das madames, lá ganhava um pouquinho mais, o valor de meio salário mínimo. Não tive presentes, não jóias, não tive espelho, não tive conselho.
Não tive oportunidades, mas a falta me colocou a procura. Nunca me contentei com a falta. Cavei com garras de águia todas as oportunidades. O desprivilégio não me fez derrotada, o desprivilégio me fez fênix.
No Brasil, pessoas como eu, tem tudo para dar errado. Nasci pobre, nasci negra, nasci mulher!
Mas como já foi dito por alguém, quando se nasce assim, ou você senta, chora e se lamenta, ou você vende flores.
EU ESCOLHI VENDER FLORES!
Atualizando:
Olha que linda homenagem ganhei da Eloah, ela escreve lindas poesias e espalha flores através de suas palavras e gestos de carinho.