quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

De Elisa Lucinda - Lua nova demais

 
 
Dorme tensa a pequena
sozinha como que suspensa no céu
Vira mulher sem saber
sem brinco, sem pulseira, sem anel
sem espelho, sem conselho, laço de cabelo, bambolê
Sem mãe perto,
sem pai certo
sem cama certa,
sem coberta,
vira mulher com medo,
vira mulher sempre cedo.

Menina de enredo triste,
dedo em riste,
contra o que não sabe
quanto ao que ninguém lhe disse.
A malandragem, a molequice
se misturam aos peitinhos novos
furando a roupa de garoto que lhe dão
dentro da qual mestruará
sempre com a mesma calcinha,
sem absorvente, sem escova de dente,
sem pano quente, sem O B.
Tudo é nojo, medo,
misturação de “cadês.”

E a cólica,
a dor de cabeça,
é sempre a mesma merda,
a mesma dor,
de não ter colo,
parque
pracinha,
penteadeira,
pátria.
Ela lua pequenininha
não tem batom, planeta, caneta,
diário, hemisfério,
Sem entender seu mistério,
ela luta até dormir
mas é menina ainda;
chupa o dedo
E tem medo
de ser estuprada
pêlos bêbados mendigos do Aterro
tem medo de ser machucada, medo.
Depois mestrua e muda de medo
o de ser engravidada, emprenhada,
na noite do mesmo Aterro.
Tem medo do pai desse filho ser preso,
tem medo, medo
Ela que nunca pode ser ela direito,
ela que nem ensaiou o jeito com a boneca
vai ter que ser mãe depressa na calçada
ter filho sem pensar, ter filho por azar
ser mãe e vítima
Ter filho pra doer,
pra bater,
pra abandonar.

Se dorme, dorme nada,
é o corpo que se larga, que se rende
ao cansaço da fome, da miséria,
da mágoa deslavada
dorme de boca fechada,
olhos abertos,
vagina trancada.
Ser ela assim na rua
é estar sempre por ser atropelada
pelo pau sem dono
dos outros meninos-homens sofridos,
do louco varrido,
pela polícia mascarada.

Fosse ela cuidada,
tivesse abrigo onde dormir,
caminho onde ir,
roupa lavada, escola, manicure, máquina de costura, bordado,
pintura, teatro, abraço, casaco de lã
podia borralheira
acordar um dia
cidadã.
Sonha quem cante pra ela:
“Se essa Lua, Se essa Lua fosse minha...”
Sonha em ser amada,
ter Natal, filhos felizes,
marido, vestido,
pagode sábado no quintal.

Sonha e acorda mal
porque menina na rua,
é muito nova
é lua pequena demais
é ser só cratera, só buracos,
sem pele, desprotegida, destratada
pela vida crua
É estar sozinha, cheia de perguntas
sem resposta
sempre exposta, pobre lua
É ser menina-mulher com frio
mas sempre nua.

(Poema encomenda,1995)
 Elisa Lucinda

 OBS.: Posto este poema de Elisa Lucinda em homenagem às milhares de meninas abandonadas que perambulam pelas rua dessa minha pátria amada chamada Brasil, meninas que nunca foram amadas, de quem as devia amar só recebeu ausência e também violência. A essas meninas invisíveis, minha homenagem.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O ano que começa

Dizem que no Brasil o ano só começa depois do carnaval. Então hoje foi o dia. Para completar terminou o horário de verão. O dia de hoje me pareceu muito longo. Quando cheguei já estava noite.

Acabaram os restinhos de tarde com sol. Agora sim o ano começa de verdade. Agora é pra valer, acabou o corpo mole, o deixar para depois, agora é arregaçar as mangas e mandar ver!

Acabaram as festas, o carnaval, o corpo na praia. Agora é trabalhar, trabalhar, começar aquela dieta, iniciar aquela atividade física, começar aquele curso. Colocar aqueles planos em prática. Agora não dá mais para deixar para depois das férias, depois do ano novo, depois do carnaval!
O ano começa agora! Vamos viver! Xô preguiça!

Agora sim, feliz ano novo!

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O outro lado do amor


Você me tirou a música.
Você me tirou  a dança.
Você me tirou o burburinho da multidão.
Você me tirou a festa.

Mas, você me deu a festa do amor.
Você me deu a alegria que fica.
Você me deu as estrelas da esperança.
Você me deu calor em noites frias.
Você me deu a certeza de um amor tranquilo.

Você me deu uma flor se abrindo.
Você me deu a lua com os sonhos desenhado nela.
Você me deu um mar de emoção.
Mas, passarinho inquieto que sou;
Ainda sinto falta da canção!

Gilmara Wolkartt


“ Soltei a mão do mundo para segurar a sua ”.
                   Caio Fernando Abreu


OBS.: Estive um pouco ausente devido ao feriado de carnaval, foram muitos passeios, viagem, indas e vindas, mas agora acabou, amanhã de fato começa o ano. Gd beijos para todos!
Ah! A poesia? Verdade? Ficção? Tudo que escrevo é verdade. Com as lentes de aumento necessária a um poeta. Bjs

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Das pessoas que se vão

11set2011 172

O tempo passa. Sempre passa. Como também passam algumas pessoas em nossas vidas. De repente, um instante, um fato, uma escolha e tudo muda. E as pessoas que sempre estiveram ali, não estão mais lá, deixam de existir. Acaba a convivência cotidiana. Acaba o riso frouxo, o olhar cúmplice, a presença. É a vida dando suas cartadas. Pois as coisas tem tempo certo para acontecer. Cabe a nós aceitá-las. Mas como não sou assim tão submissa, não consigo passar por elas sem sentir. E quando sei que as pessoas estão passando pela minha vida, sinto,sinto muito. Já sinto saudade da presença. Já sofro com os silêncios e vazios que ficarão.

Trago o coração fora do corpo, ando pelos caminhos do amor.Das pessoas sinto a alma, e conheço bem as que sabem amar de verdade.

Por essas eu sofro. Essas não quero que se vão!

Mas como ainda é tempo de se encontrar, quero comungar dessa presença, e beber dessa amizade, enquanto a taça ainda está cheia!

 

Para Lívia Pig.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Coração




Coração que bate forte

Grita como bolhas cintilantes do arco-íris

Grita emoções fluidas

Coração de açucar

Que caminha ao encontro do sol

Deixa atrás de si um mar de estrelas

Que brilham com a luz da lua

Coração te faço um apelo

Caminha mais devagar

Bata com menos força

Liquidifique menos

Fica forte coração

Se enfeite de flores

Mas fique firme!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Ainda sobre o natal

natal2011 065  

 

Como todos os anos,  passamos o natal em família.  Mamãe fazia questão de ter a família reunida no natal, depois que ela morreu, mantivemos  a tradição, como um pacto,um silencioso pacto, temos um acordo não dito :estejamos nós em qualquer lugar do mundo, no natal devemos estar juntos.

Esse ano o natal foi mais um desses.Estávamos todos juntos, os 09 irmãos e suas respectivas famílias.

Apesar de ter sido um momento de felicidade, algo em mim ficou incomodado.

O final de semana do natal passou  muito rápido. Queria ter estado lá sem pressa, ter ficado mais tempo com minhas irmãs. Não  queria apenas abraçá-los, queria comungar das suas presenças, abraçar suas almas. Queria ter ouvido suas histórias, saber dos seus planos, me deliciar com suas conquistas.

Queria ter me deliciado com o banquete dos afetos, queria ter bebido de suas presenças!

Mas os senti escorrendo pelos dedos. Como água que escapole pelas mãos. O tempo e as rotinas cotidianas nos afastou, levou cada um de nós para lugares diferentes, distantes.

Isso me deu uma imensa tristeza! Tive vontade de tê-los mais perto,mais cúmplices, mais meus. Como é triste sentir isso que nem sei bem o que é, distância, ausência, sei lá! O que sei é que me dói a alma e água escultura meus olhos.

Talvez tenha saudade daquilo que não volta mais, da convivência cotidiana entre irmãos, das brigas, das gargalhadas. Agora cada um de nós tem sua família, filhos, marido, outros amores, outras necessidades, outras preocupações, outros segredos!

Não somos mais os mesmos, cada um tem seu segredo, seu mundo particular. Estamos partidas em afetos, mas o amor devia ser atemporal.

Mas não tem jeito, somos todos vítimas do tempo, ele sempre se encarrega de dar suas cartadas e cada um de nós cumpre o seu destino. Nascemos, crescemos com os irmãos, ficamos jovens, arrumamos amigos que sabem mais da gente do que irmãos, casamos, temos filhos, nos afastamos da família primeira. Dividimos nossos afetos, nosso tempo. Nascemos em uma família e morremos em outra.

Aff! Estou embriagada de saudade daquilo que não volta mais!

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Acabou-se o que era doce!

Acabaram as férias. Amanhã começa tudo de novo.Outra vez. Amanhã as crianças voltam para a escola, eu e marido-amor voltamos a trabalhar.

Como diz o ditado, acabou-se o que era doce.

Recomeçamos amanhã as atividades do ano. Mas não estou triste não. Estou na expectativa. E feliz pela oportunidade de continuar.

Continua a vida. A roda da vida continua girando, novos ciclos se abrem e recomeçamos.

Só peço a Deus que esse ano seja bom comigo, que não me maltrata muito, que eu seja forte, mas que não perca a ternura.

Afinal novos ciclos se abrem e como tenho girassóis na alma e o coração na boca, caio de cara na vida e recomeço, pois são os recomeços que faz girar a roda da vida.

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