sexta-feira, 25 de março de 2011

Racismo

Estou há algum tempo ensaiando para falar desse assunto bem espinhento.

Estou adiando, adiando, mas esta semana fui no blog fiodeariadne e ela fazia um chamado para a blogagem coletiva Infância sem Racismo proposto pelo blog Desabafo de mãe . A blogagem é baseado na campanha do Unicef com o mesmo tema.

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Eu já havia visto o vídeo do UNICEF,  infância sem racismo, na semana anterior  . Naquele período me senti provocada, por esse motivo segui o link do yotube e fui ler os comentários do vídeo, fiquei horrorizada com os comentários que li! Alguns comentários eram bem contrutivos e reflexivos, mas muitos tinham um conteúdo preconceituoso e pejorativo. A net revela facilmente a hipocrisia de muitos brasileiros. O brasileiro é racista sim! E da pior forma possível, pois é um racismo encoberto, ou de culpabilização do próprio negro.

Por isso fiquei receosa em falar sobre o assunto, pois estou totalmente implicada com ele. Ainda que pisando em ovos, me espelhei na coragem do blog Desabafo de mãe e  resolvi falar sobre o assunto:

Eu e o preconceito.

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Minha mãe era negra, minha bisavó materna veio da África quando era criança. Meu pai era branco de olhos verdes. Nasci negra, apesar de na minha certidão de nascimento estar escrito que sou parda, aliás tenho uma implicância com isso! E parda é cor de gente? Tenho irmãos brancos, negros e marrons, mas a maior parte está registrado como pardos. Eu de antemão deixo bem claro. Sou negra.

E ser negra nesse país é uma desvantagem. Sinto na pele o preconceito desde pequena. Vivemos em uma cultura em que ser negro é sinônimo de ser feio. Isso afeta diretamente a autoestima de muitos dos nossos brasileiros negros.

O nosso cabelo é alvo de muitas piadas e as crianças aprendem logo cedo que o cabelo deve ser domado, pois tem cabelo “ruim”, o que também quer dizer feio.

Me lembro que quando criança, a nossa brincadeira predileta era colocar um pano na cabeça e virá-la de um lado para o outro, fingindo que o cabelo era longo e liso. Passávamos a tarde toda desfilando para lá e para cá com aquele pano na cabeça.

Um outro fato sobre o preconceito que vivi e que muito me marcou, foi quando era mais jovem e fui procurar emprego numa empresa de assepsia telefônica.

Quando cheguei na recepção para preencher um cadastro, a moça me olhou e sabe o que ela falou? Pasmem. Ela disse que eu não podia preencher a ficha, porque para ocupar a vaga, a pessoa tinha que ter cabelo “bom”. Acreditam numa coisa dessa? Fiquei passada! E o pior de tudo, não tive ação. Virei as costas e vim embora. Isso aconteceu em 1993 e eu ainda não tinha consciência dos meus direitos. Se isso acontecesse hoje, eu iria exigir retratação pública e idenização moral.

Durante muito tempo tive cabelos lisos e usei chapinha. Mas, com a maturidade, ando mais abusada e segura de mim mesma. Hoje meu cabelo é minha bandeira de luta. Quando alguém comenta do meu cabelo( que diga-se de passagem está lindo, cheio de cachinhos), dizendo, ainda que de brincadeira, que meu cabelo é ruim, reajo logo. Meu cabelo na verdade é muito bom! Posso usá-lo da forma que eu quero, liso ou cacheado e além disso é super prático, é só molhar e passar creme que o cabelo está prontinho! Cabelo bom é o meu! O resto é bobagem.

Na vida adulta também sofri preconceito. Foi quando conheci meu marido. Pois é, ele é branco. A família dele não me aceitou logo de cara, devido a cor da minha pele.

Certa vez, estávamos chegando juntos na casa dos pais dele, quando sem querer ouvi o pai dele dizendo: – “Não quero saber dessa “nega” enfiada aqui em casa”. Vocês já sentiram uma facada no peito? Eu senti. E foi nesse dia. Aquelas palavras ressoaram em mim como um punhal grosso e gelado adentrando meu coração. Dei meia volta na mesma hora. Nunca mais fui á casa deles. A situação só se reverteu quando já estávamos noivos e a mãe dele ofereceu a mim um almoço e um pedido formal de desculpas. ( O pior é que hoje eles vivem dependendo da nossa ajuda financeira, kkkkkk!).

Estou falando para vocês da minha experiência com o racismo para que possamos encarar esse assunto de frente e deixar claro que não existe democracia racial no Brasil. Eu literalmente senti isso na “pele”.

O racismo no Brasil existe e é cultural, os 350 anos de escravismo deixaram marcas, mas as marcas não são o pigmento da pele, mas uma forma de pensar de menos valia do negro que se reflete nos dias de hoje e perpassa todas as camadas da população. Esse racismo silencioso, que se diz com o olhar, com a forma de se dirigir a quem tem a pele negra, essa coisa velada, esse “racismo cordial”.

Assim como Martin Luther King, eu também tenho um sonho. Sonho com o dia em que nesse pedaço de chão que se chama Brasil, nenhuma pessoa seja julgada devido a cor de sua pele, tenho esperança de que meus filhos não tenham que se esforçar mais que os outros para conquistar seu espaço nesse mundo, sonho com um país onde não haja diferença de raça ou de cor, onde todos irmanamente possamos fazer um colorido país de uma nação de todas as cores que se chama Brasil.

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Acesse o blog Desabafo de mãe e participe você também dessa campanha!

10 comentários:

Glorinha L de Lion disse...

Oi Gil, te aplaudo de pé! Falou e disse tudo! O Brasil é racista sim. Temos preconceito de cor, de raça, social, econômico, cultural. Todo mundo tem algum tipo de preconceito e rever essas ideias retrógradas e atrasadas é dever de todos nós. O próprio negro tem preconceito de cor, ao se dizer pardo ou "moreninho", como vejo muitos falando...o próprio Ronaldo, Fenômeno declarou-se branco, quando na verdade é negro. Acho lindo quando alguém como vc deixa o cabelo crespo, se assume como é de verdade, sem eufemismos ridículos tipo pardo, mulato, etc. Como aqui a mistura de raças se deu de forma intensa através de 500 anos de miscigenação, na maioria das vezes a cor da pele não diz nada, por isso sou contra o sistema de cotas. Acho sim que todo negro deve se orgulhar, como qq outra pessoa. Eu, como sou muito branca, já fui chamada no tempo de criança de branquela, branca azeda, etc...e como tinha cabelos cacheados queria ter lisos, iguais ao da minha irmã. Conceito de raça é uma coisa ultrapassada e deve ser encarada como tal. Sei bem o quanto os negros devem sentir na pele esses preconceito burro, assim como tb os nordestinos, os pobres, etc, etc. Achei seu post muito positivo e inteligente. Quanto mais falarmos nisso, que o Brasil é preconceituoso, mas cedo isso acabará. Tb espero o dia em sejamos todos aceitos e assumidos, como somente: brasileiros. Beijo grande,

Pandora disse...

Linda postagem, excelente debate, texto amplo em significados!!! Eu também compartilho de seu sonho e aposto minhas fixas nele!!!! Valendo, com energia e acredintado, foi construido historicamente um lugar de submissão para o negro que precisa ser descontruido e é quando pessoas se erguem e falam como você fez agora, cada dia um pouco mais e um dia concluiremos a construção de nosso sonho!

Amanda Luna disse...

Oi querida, parabéns pelo post, ficou pereito!!! acho que o preconceito existe sim e, não só contra negros, é contra todo tipo de pessoa.. deficientes, baixinhos, altos, albinos, gordos, magros e, por aí vai... a nossa sociedade tem que parar de ser hipócrita e acabar logo com isso, será que ninguem percebe que sem o preconceito podemos ter um mundo melhor para se viver?
beijão
www.sermulhereomaximo.com.br

Flávia - Compartilhando Idéias... disse...

Dizer que não existe preconceito é muito fácil para quem não é negro. Infelizmente milhões de pessoas ainda rotulam um ser humano pela sua casca, pela sua cor e não pelo caráter, pelo que ela carrega dentro de si.

O preconceito ainda existe sim, mas acredito que em proporções menores se compararmos com o mundo há 50 ou 30 anos atrás. Tenho esperança de que o passar do tempo varra todo e qualquer preconceito para longe deste planeta.

Lembrando que não só os negros sofrem preconceito, mas também as pessoas pobres, as que têm pouco estudo, os homossexuais, os deficientes físicos, as mães solteiras, etc etc etc!!!

Por isso a sua atitude é a mais correta: ser autoconfiante, assumir os cachos e ser mais você PODEROSA!!

Belíssimo post!

janeladesonho.blogspot disse...

Oi minha querida ,
meus avós paternos eram negros , meu vô tinha um cabelo bem liso , e morreu ao 78 anos com nenhum fio branco , minha avó , mulata ... meu pai e meus tios são assim uma mistura , uns mais claros , outros com o cabelo crespo , outros lisos , mas , pasme , minha mãe discute comigo e diz que não ele só é moreno queimado de sol ahnnn!!!! Como assim ? è minha mãe filha de italiano , é uma racista confessa , tão racista que não assume nem a cor do meu pai , casados a quarenta anos .
Isso , e mais a rebeldia da adolecência me fez uma ativista doméstica , as discussões eram brabas ...
Enfim um belo dia disse em uma discussão , mãe a senhora vai ter netos negros e serão os mais amdos ... anos se passaram e meu irmão se casou com uma bela negra , miudinha , e meus sobrinhos são lindos , Lara tem os cabelos parecidos com os seus , cachinhos bem feitos , meu sobrinho então ... é uma mistura linda , branco , olhos azuis e cabelos bem crespos , uma delicia !!!! E minhas filhas brancas , com os cabelos mega armados e crespos !!!!! Que a mistura só fez realçar , hoje o preconceito que minha mãe sentia foi sufocado ´pelo amor aos netos e também a minha cunhada que é uma pessoa estudiosa , e vencedora . Ela sofreu o preconceito dolorido de ouvir as pessoas perguntando se meu sobrinho era adotivo , ou até se ela era a baba ... desculpa é demais .
Sempre procurei presentear minhas filhas com bonecas negras , e hoje em dia até japonesinhas , e ensina-las que todo o preconceito é ruim , e desnecessario , a religiao também nos ensinou hj sou branca , amanhã india , negra ...

Marilu disse...

Querida amiga, tenha um lindo final de semana. Beijocas

Élys disse...

Infelizmente existem muitas pessoas que não conseguem ver que só existe uma raça: A raça humana.É uma pena a gente ter de falar de um tema que nunca deveria existir. SOMOS TODOS IGUAIS.
Beijos.

Paula Li disse...

Oi Gil, também sou negra e é claro que o preconceito existe e é bem latente. Principalmente quando este negro ousa desafiar as regras impostas por séculos dominação e consegue ascender socialmente.
Um negro médico?
Um negro empresário?
Um negro dirigindo carrão?
Causa estranheza até nos irmãos de cor.
Aliso meus cabelos mas não nego minha cor.
Acho ridículo avaliar um ser humano pela cor de pele, pois esta não define caráter.
Bjs

Elaine Gaspareto disse...

Gimara,
Seu texto é perfeito em todos os sentidos: sensato, bem ecrito, consistente e muito real. Um texto que deveria ser lido e reapssado mundo afora, tamanha a verdade que ele expressa.
Sou branca, de olhos claros. Assim como minha irmã mais nova. E ela tem 3 filhos, sendo 2 do primeiro casamento. E eles são negros.Vejo claramento como são tratados, inclusive pela minha mãe. Minha sobrinha está com o cabelo destruído de tanto tentar alisar. Agora bati o pé, apelei e minha irmã também: chega de alisar, chega de ceder. Ela precisa aprender a valorizar o que ela é, negra sim. Lindamente negra.
Mas vejo o racismo, é um tolo quem diz que o Brasil é um país sem racismo. E aqui o racismo é ainda mais cruel, pois é disfaçado.
Como eu disse, belo texto.
E imagino seu choque ao ouvir seu sogro falando. Sogro? Não... ogro perdido no tempo.
Ah,linda foto de uma linda mulher. Negra.

Beijossss

Anonymous disse...

Gil...

Você é uma vitoriosa... admiro pessoas assim.
Me identifiquei muito contigo, pois também sou negra e sempre sofri racismo... ainda mais quando conseguimos sucesso na vida, parece que incomoda... rsrs... É incrível como alguns seres humanos são tão pobres de espírito, de conhecimento e de amor.

Fica com Deus linda...
Abçs,
Dani

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Beijos floridos na sua alma
Gilmara

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